Antes de tudo
Prólogo
Linha Dourada
### A memória encontra na página em branco uma forma de sobreviver. Palavras se tornam lastros daquilo que já se foi, sendo lapidadas pelas emoções, relações e o que de fato permaneceu.
Eu não consigo lembrar daquela noite como uma coisa só. Ela vem em pedaços, do frio da madeira sob os pés, do cheiro de chuva no concreto, do olhar do meu pai carregando mais perguntas do que respostas.
Compartilho essa memória do jeito que consigo, conectando fragmentos na esperança de guardar parte de mim.
Eu havia acabado de completar dezesseis anos e fazia menos de uma semana que o mundo havia mudado de forma, ou pelo menos a forma com a qual eu o via.
Essa mudança chegou sem aviso. Uma manhã eu acordei e as pessoas tinham linhas saindo do corpo, fios com diferentes cores, densidades e com textura própria, ligando cada pessoa a outras com as quais tinham algum vínculo emocional. Uma linha por vínculo, e nenhuma de cor única: mudavam de tom no caminho, porque cada ponta guardava o que uma pessoa sentia pela outra — o que eu só entendi muito depois. Ninguém mais via aquilo. Apenas eu. E nos primeiros dias eu ainda estava tentando entender se era real ou se era alguma alucinação da qual eu podia escapar.
Naquela madrugada, a primeira opção estava ganhando.
Havia algo me acordando por dentro, uma pressão fervendo atrás do peito sem encontrar saída. Desisti de dormir, sentei na beirada da cama e fiquei olhando para o chão até os pés resolverem ir até a janela por conta própria. O vidro me devolveu meu próprio rosto antes de me devolver a rua: os olhos claros demais, cinza de água congelada, com os pontos violetas que só apareciam de perto. Lá embaixo, a praça estava quase vazia. Um casal num banco, um grupo de amigos atravessando a rua, uma pessoa caminhando sozinha pela calçada do outro lado. E entre cada uma delas, as linhas.
A do casal saía do peito dela em laranja-âmbar espesso e morno, e ao chegar nele mantinha praticamente o mesmo tom, densidade e textura. Bonita de um jeito que me incomodava porque eu não sabia o que estava vendo. Entre os amigos, fios com cores diversas e movimentos intensos, amarelos cintilantes com pequenas labaredas vermelhas que apareciam e sumiam, respondendo ao ritmo da conversa, alargando-se no riso, afinando-se no silêncio.
Da pessoa sozinha saía uma linha azul-acinzentada de bordas esmaecidas, pesada, pendendo levemente para baixo como tecido encharcado, perdendo-se além do que eu conseguia ver da janela. Fiquei olhando para essa última por mais tempo, até sentir o próprio peito reagir a ela de um jeito que eu não soube nomear. Mesmo depois de dias vendo aquilo, eu não tinha me acostumado. Sentia que provavelmente nunca iria.
Foi quando percebi que o incômodo no peito tinha a ver com uma das minhas linhas.
Saí do quarto por impulso, e a linha me guiava. Os pés atravessaram o corredor, atravessaram a sala, e lá estava meu pai, de costas, abrindo a porta para sair.
A linha entre nós tremia, mas não do jeito que as outras tremiam, aquele pulso vivo de quem está rindo ou discutindo. Era diferente, com zonas quentes que escureciam de repente, trechos que se afinavam até quase desaparecer e voltavam, uma vibração alta e insistente que eu não sabia ler mas que o corpo entendia como urgente e perigoso.
Ele se virou. Viu que eu estava ali. No rosto havia uma mistura de cansaço e ternura que ele usava quando não queria alarmar. Se aproximou e abaixou um pouco, deixando os olhos no nível dos meus, um gesto que ele ainda fazia mesmo eu já tendo quase a altura dele, porque era assim que ele sempre tinha feito.
— Boa noite, filho. Ainda acordado?
Olhei primeiro para o rosto sereno dele, depois para a linha inquieta.
— Você está bem?
Foi nesse instante que as outras linhas dele começaram a desaparecer. Uma a uma, tudo que o ligava ao mundo do lado de fora, trabalho, vizinhança, lugares que eu não conhecia, recuando, dissolvendo, perdendo cor.
— Estou, sim. Só preciso resolver uma coisa. Daqui a pouco eu volto.
Não lembro se foi a frase, a forma como falou ou o desaparecimento das suas linhas, mas sei que escolhi o abraçar, com força, com aquele tipo de desespero que a gente sente antes de saber o que vem.
Eu ainda não tinha visto aquilo acontecer com ninguém. Fiquei imóvel dentro do abraço, sentindo cada linha sumir, primeiro as mais distantes, depois as mais próximas, até restar só a que nos conectava.
— Promete que vai voltar inteiro?
A linha se tornou dourada. Ouro profundo e luminoso, com uma densidade que nada do que eu havia visto naquela semana tinha. Não vibrava como as outras, não oscilava, apenas ficava ali entre ele e eu, irradiando calor e silêncio ao mesmo tempo. Eu não sabia o que aquilo era, mas senti imediatamente que estava vendo alguma coisa importante, talvez única, talvez irrecuperável.
Ele me afastou levemente, passou a mão no meu cabelo e deu um sorriso carinhoso.
— Prometo. Está tarde, melhor voltar pra cama.
Eu costumava odiar aquele sorriso. Ele sorria como se houvesse amanhã.
Vi ele passar pela porta. Caminhei para meu quarto com a linha dourada me acompanhando. Deitei de volta no edredom cinza sentindo ela pulsar no meu peito. Não sei quanto tempo passou. Mas lembro da dor. Algo quebrou dentro de mim, e a linha dourada se rompeu.
