Ato 1 — Despertar
Capítulo 03
Casa Amarela
O Santos ofereceu carona e eu recusei, e a recusa não tinha nada de orgulho. Eu precisava do trajeto.
Tirei a bicicleta do fundo do prédio na quinta-feira depois do almoço, com quase duas horas de folga para um percurso de quarenta minutos, e saí devagar. Pedalar tem uma coisa que caminhar não tem: as pernas ocupam o corpo inteiro num ritmo fixo e a cabeça sobra. Fica sobrando de um jeito organizado, girando na mesma cadência das pedaladas. E eu precisava daquilo, porque o que eu queria saber e o que eu queria ouvir não eram a mesma coisa.
Eu tinha quatro dias de pai enterrado e uma semana e meia de linhas.
Na altura da ponte eu já tinha as três perguntas, e as pus em ordem — da mais barata para a mais cara, porque eu podia não conseguir fazer as três. Como você conheceu a minha mãe. O que ela fazia lá. O meu pai sabia.
E entre a terceira e a rua da casa eu pensei na outra metade, que era o que eu ia ter de entregar em troca. Não era muito. Eu tinha dezesseis anos, um sobrenome que o Santos me disse para não usar, e a informação de que eu enxergo os fios que ligam as pessoas. Era tudo o que eu tinha, e eu não podia dar aquilo a ninguém.
Cheguei às quatro em ponto, suado, com a camisa colada nas costas.
A rua era daquelas silenciosas em que as árvores crescem devagar e os muros são altos demais para a curiosidade comum. Encostei a bicicleta no muro, do lado de dentro da sombra, e contei as saídas antes de tocar a campainha. Duas na frente. Uma na lateral do jardim. Uma janela baixa no fundo, dando para o muro, alta o bastante para precisar de apoio, e eu olhei se havia onde pisar.
A casa era amarela de um amarelo antigo, aquecido pelo sol das quatro. Janelas largas, cortinas claras, um jardim cuidado por alguém com paciência de sobra.
O portão abriu antes de eu apertar nada.
O Lucas veio pelo caminho de pedra com as mãos vazias e sem pressa nenhuma, e a linha entre nós dois estava exatamente onde tinha ficado quatro dias antes, no salão: espessa, morna, saindo dele em direção ao meu peito e chegando com uma constância que nenhuma linha daquele velório tinha tido. Âmbar. Ela não oscilou quando ele me viu, e não engrossou, e não recuou. Já estava naquela espessura antes de eu chegar, e eu não sabia o que fazer com uma coisa que me esperava assim.
— Você veio de bicicleta.
— Vim.
Ele olhou a bicicleta, olhou a minha camisa, e não comentou.
— Entra. Tem gente aí dentro, e eles não vão perguntar nada. Eu pedi.
Atravessei o portão e a casa me atingiu antes do vestíbulo.
Não como o velório. No velório eram trinta e uma pessoas amarradas por fios que se cruzavam sem se conhecer, tudo agudo, tudo recente, uma trama que chiava. Ali era o contrário: os fios estavam estendidos havia tempo e já tinham encontrado a espessura em que descansam. A trama tinha peso e não tinha pressa. Passar por dentro dela era atravessar um cômodo em que o ar está mais denso do que no corredor, e o corpo percebe a diferença de pressão antes dos olhos entenderem que mudou de sala.
Cinco.
Estavam pela sala e pelo jardim, ocupando o espaço sabendo onde o assoalho estala. Alguns levantaram os olhos. Outros não.
Uma garota desenhava perto da janela. O fio que a ligava à menina que falava do outro lado da sala era verde limpo, fino, de espessura quase constante — e cada palavra da outra produzia uma ondulação curta que corria o percurso todo e voltava, e a mão dela mudava a pressão do lápis exatamente no compasso dessas ondulações, sem que a cabeça se levantasse uma vez. O fio não engrossava. Só respondia, e respondia todas as vezes.
O menino do sofá folheava um livro. Duas linhas saíam dele em direção aos dois garotos que jogavam alguma coisa no chão, azul claro, finas, sem som e com presença — e quando um dos dois mexeu uma peça no lugar errado, o fio correspondente ficou rígido por dois segundos, com a tensão de um cabo que passou a sustentar peso. Ele não olhou. Não corrigiu. Deixou a peça errada onde estava e virou a página, e a rigidez cedeu devagar, como cede o que foi apertado e não arrebentou.
No jardim, uma menina corria atrás de uma bola. As linhas que a ligavam aos outros se esticavam quando ela se afastava e não perdiam nada de firmeza no caminho — laranja quente na origem, e quentes ainda ao chegar, quinze metros depois. Havia nela uma quantidade de movimento que sobrava para o tamanho do quintal.
A mais nova estava sentada no degrau da porta sem fazer nada. Quando eu passei, ela levantou o rosto antes de eu entrar no campo de visão dela, do jeito que a gente levanta o rosto quando entra vento por uma fresta.
Eu parei no vestíbulo por alguns segundos, com o coração ainda no ritmo da bicicleta.
As minhas próprias linhas estavam curtas. Naquela semana os fios que saíam de mim para as pessoas do mundo tinham perdido comprimento e temperatura ao mesmo tempo, e ficavam ali, dobrados no ar a meio metro do meu peito, sem chegar em nada. O único que ia longe era o do Lucas, e ele não era meu.
E havia uma coisa naquela sala que eu demorei a saber dizer, e que estava ali desde o primeiro segundo: os cinco estavam lendo. Cada um lendo por um caminho diferente, e cada um lendo um pedaço.
Nenhum deles estava vendo.
O Lucas fez chá, o que me pareceu estranho numa tarde de trinta graus, até eu entender que o chá era o relógio dele. Eu tinha até a xícara esfriar.
Perguntei a primeira na ordem em que eu tinha combinado comigo mesmo na ponte.
— Como você conheceu a minha mãe?
Ele pôs a xícara na mesa antes de responder, e deixou um silêncio ali. O silêncio era medido.
— Eu fui buscar a sua mãe num aeroporto — ele disse. — Ela tinha sete anos e uma mochila, e ninguém me explicou nada além do horário do voo.
Eu pus a xícara na mesa sem beber.
— Sete anos.
— Sete. — O âmbar entre nós subiu de temperatura na altura do meu peito e não mudou de espessura. — Eu aprendi a fazer trança, Nicolas. Errado, os primeiros dois anos. Ela ia para a escola com uma coisa que parecia um nó de marinheiro e não reclamava nunca, e eu levei muito tempo para entender que ela não reclamava porque achava que reclamar podia fazer com que a devolvessem.
Ele parou ali, e eu deixei o silêncio ocupar o espaço porque não tinha nada para pôr nele.
— Buscar de onde?
— Do aeroporto.
Foi a primeira vez que ele fez aquilo comigo. Eu tinha perguntado de onde, e ele tinha respondido de onde.
— Que trabalho era esse, o que mandou você buscar uma criança num aeroporto?
— A Plexus.
Eu nunca tinha ouvido aquela palavra, e três dias antes, numa sala sem janelas, o Santos tinha se recusado a dizê-la. Ouvi do Lucas numa mesa com chá, no tom de quem informa o nome de uma rua.
— E o que a Plexus faz?
O Lucas se recostou.
— Do jeito curto? Estuda como as pessoas se relacionam, e usa o que aprende. — Ele girou a xícara meio dedo. — Do jeito honesto, é mais difícil de dizer sem parecer propaganda. Existem línguas que só continuam existindo porque a Plexus pagou o trabalho de campo que mais ninguém quis pagar — gravação, gramática, dicionário, uma geração inteira de bolsas para gente que ia morrer levando aquilo embora. E existem regiões onde a mortalidade infantil caiu pela metade porque alguém daqui desenhou a reforma e depois ensinou a repetir em outro lugar. Ela faz isso. Faz de verdade, e faz há muito tempo.
Eu fiquei com aquilo. Não havia nada na linha dele que trabalhasse contra as palavras — nenhum trecho mais fino, nenhuma correção de rota, nenhum daqueles nós curtos que aparecem quando alguém acredita menos do que está dizendo. Ele estava falando de uma coisa em que confiava, e a confiança era antiga.
— E ela trabalhava com o quê?
— Com pessoas. — A pausa de músico outra vez. — Ela era pesquisadora, Nicolas. Boa. Talvez a melhor que eu vi.
— Pesquisadora do quê?
— Você quer que eu responda isso hoje ou quer que eu responda certo?
Outra vez. Ele não negava e não recusava — punha o adiamento dentro de uma pergunta, e a pergunta vinha montada de um jeito que só tinha uma resposta possível.
— Certo — eu disse.
— Então me dá algumas semanas.
A linha entre nós não mexeu. Nem um grau, nem um décimo de milímetro. Eu tinha visto quatro adultos mentirem por conveniência nos quatro dias anteriores, e nos quatro a linha oscilou um pouquinho do lado deles. Ali não oscilou nada. Ele estava adiando de propósito, sabendo o que estava adiando, e completamente em paz com isso.
Guardei a terceira pergunta. O meu pai sabia. Não pela ordem — porque a linha dele estava firme demais, e eu não queria gastar a pergunta mais cara num homem que ainda podia adiar.
Em vez dela, gastei uma que não estava na lista.
— Eu vejo os fios entre as pessoas.
Falei olhando para a xícara. Foi a coisa mais imprudente que eu tinha feito na vida até aquela tarde, e eu a fiz de propósito, e nos quarenta minutos de pedal eu tinha decidido exatamente o contrário.
O Lucas ficou parado.
E a linha dele fez uma coisa que eu não tinha visto nenhuma linha fazer: engrossou e esfriou ao mesmo tempo. As duas coisas juntas, no mesmo instante, no mesmo trecho de fio. Ganhou corpo na direção do meu peito e esfriou no mesmo movimento, e ficou assim, mais densa e mais fria, sustentando.
— Eu sei — ele disse.
— Como?
— Porque no domingo, naquele salão, trinta pessoas começaram a respirar no seu compasso, e você foi o único ali que não percebeu. — Ele pôs a mão na mesa, aberta, e não em cima da minha. — Escuta uma coisa, e é importante. Dentro da Plexus, ver as linhas é mito.
— Mito.
— Exagero antigo. Coisa de arquivo. Uma história que os mais velhos contam sem acreditar, e os mais novos repetem para rir. Existem centenas de pessoas na organização com percepções aumentadas, e todas elas percebem por um sentido só e por um pedaço. Ninguém vê. Ninguém acredita que se possa ver. — Ele olhou para o jardim, onde a menina da bola continuava a gastar quintal. — Cada um daqueles cinco tem um estilhaço. Nenhum deles tem o que você tem, e nenhum deles vai entender o que você tem se você contar.
O fio entre nós continuava grosso e frio.
— Isso te protege — ele disse. — Enquanto for mito, ninguém está procurando você.
Foi ele que me levou ao ateliê, e eu não pedi.
Subimos, e no fim do corredor ele abriu uma porta e ficou de fora. O ar de dentro saiu antes de eu entrar. Terebintina velha, papel guardado, e por baixo dos dois uma coisa doce e mineral, seca, que ficava no fundo do nariz depois do resto passar.
— Sua mãe passou muitos anos aqui.
Entrei devagar, e a primeira coisa que aquele quarto fez comigo foi tirar o comprimento das minhas linhas. Elas encolheram mais, até quase encostarem no meu esterno, e depois pararam de existir para qualquer efeito prático, porque não havia ninguém ali com quem se relacionar. Não havia trama nenhuma ali, porque trama precisa de gente. Eu tinha passado nove dias com o mundo inteiro riscado de fios, e entrar num lugar onde não havia nenhum foi o silêncio mais completo que eu ouvi na vida.
E o lugar estava cheio.
Uma estante de livros de arte em ordem de tamanho. Uma lata com sete pincéis organizados por espessura, e no fundo da lata uma marca circular mais escura onde um oitavo cabo tinha ficado apoiado por anos. Uma mesa de madeira escura com manchas de tinta tão fundas que já não eram sujeira, eram material. Tubos enrolados até o meio, com a dobra vincada sempre no mesmo ponto, de tanto repetir. Uma régua de metal com o zero gasto.
Eu passei a mão na borda da mesa e a madeira estava lisa num trecho de dois dedos, na altura em que uma mão descansa quando a pessoa está sentada trabalhando.
Eu não lembro da voz da minha mãe. Não lembro do cheiro dela, nem do peso do braço dela, nem de nada que se lembra de uma pessoa. O que eu tinha dela até aquela quinta-feira era um túmulo com lírios uma vez por ano e três ou quatro frases que o meu pai me deu ao longo de dezesseis anos, sempre as mesmas, sobre ela ter morrido no parto e eu não ter culpa.
Ali havia uma mulher que apoiou o polegar no mesmo ponto de uma mesa até a madeira ceder.
No canto, uma tela coberta por um pano.
Tirei o pano.
Pessoas atravessando uma cidade comum, e entre elas, fios. Não exagerados. Não dominando a cena, não pedindo nada de quem olhasse: só existindo, discretos, ligando um desconhecido a outro, e cada um mudando de cor no caminho de um corpo até o seguinte.
Encostei os dedos na tinta seca e senti as camadas. Ela tinha voltado ali muitas vezes, no mesmo trecho, esperando secar entre uma passada e a outra.
Eu tinha nove dias de vida naquele mundo. Estava convencido, com a arrogância que eu tinha aos dezesseis anos, de que eu era a única pessoa a quem aquilo tinha acontecido.
E o corpo entendeu antes de mim, do jeito que o corpo faz: um calor na base da garganta subindo até atrás dos olhos, a respiração encurtando no alto do peito sem chegar a virar nada, e as mãos frias. Fiquei em pé na frente daquela tela até aquilo passar, e não passou.
O Lucas desceu para atender o telefone.
Eu tive noventa segundos, e usei os noventa segundos.
Meu pai tinha um jeito de olhar um lugar novo, e me obrigava a repetir na calçada depois: por partes, de fora para dentro, começando pelo que está mais alto. Comecei pelo alto. Prateleira de cima, livros grandes, tudo por tamanho e nada fora de série. Segunda prateleira, o mesmo.
E na estante do meio, entre um livro de anatomia e um álbum de aquarelas japonesas, havia uma falha.
Não um espaço vazio. Uma falha: os dois livros dos lados estavam inclinados um para o outro, do jeito que fica uma estante quando alguém retira um volume grosso e não reorganiza o resto. A poeira na madeira tinha uma borda reta. A borda tinha a largura de um caderno.
Passei o dedo na linha de poeira e medi com a mão. Quatro dedos.
Ouvi os passos dele na escada, saí de perto da estante e voltei para a frente da tela.
Alguém tirou um caderno daquela prateleira. E o único alguém com chave daquela casa era o homem que tinha acabado de abrir a porta daquele quarto para mim.
Foi a primeira coisa importante que eu deduzi na vida.
Na porta, já de bicicleta, eu fiz a última pergunta do dia, e ela também não estava na lista.
— Aqueles cinco estudam onde?
— Ankher — ele disse. — Colégio da Plexus.
— E como se entra?
Ele demorou.
— Não é um lugar em que você se inscreve, Nicolas.
— Não foi isso que eu perguntei.
O Lucas riu, e o riso foi curto e sem nenhuma alegria, e a linha entre nós engrossou outra vez e outra vez esfriou.
— Foi exatamente isso que você perguntou. — Ele pôs a mão no portão. — Vem no sábado. A gente conversa de novo.
A volta foi de subida quase toda.
Eu fui pedalando com as pernas ardendo e a cabeça naquela cadência fixa outra vez, e a coisa se organizou sozinha, porque o corpo estava ocupado demais para interferir.
O Santos tinha me dito na terça que não se puxa nada pela porta da frente da Plexus, e que era melhor encontrar outros caminhos. O Lucas tinha acabado de me mostrar um caminho e de me dizer, na mesma frase, que ele não se abre por inscrição. Dentro daquela casa havia cinco pessoas que percebem por pedaços, todas alunas de um colégio que pertence à organização onde a minha mãe passou a vida trabalhando, e onde ninguém acredita que exista alguém como eu.
Não havia nada para decidir. Já estava decidido na ponte, na ida, antes de eu ver o ateliê — eu só não tinha ainda o nome do lugar.
O que havia para decidir era o prazo.
E o prazo era todo o problema, porque eu não podia chegar naquele colégio sendo o que eu era naquela quinta-feira: um garoto de dezesseis anos que lê a intenção de um homem pela linha e leva quatro minutos de surra porque o corpo não acompanha o que os olhos entregam. Eu tinha visto tudo, na terça, na sala sem janelas, e não adiantou nada.
Então tinha o corpo, e o corpo levava meses. Cinco da manhã, todo dia, e ninguém precisava me convencer disso.
E tinha a outra metade, que era mais difícil de treinar porque não tem hora marcada: aprender a estar num lugar cheio de gente que percebe coisas e não entregar uma única. O Lucas tinha acabado de me dizer que enquanto for mito ninguém está procurando por mim, e eu tinha acabado de contar a ele, de propósito, a coisa que eu não devia contar a ninguém. Fiz as duas coisas na mesma tarde, e uma desfazia a outra. Contei uma vez. Não podia contar de novo.
E tinha o Santos.
Ele ia ser contra. Não por se ofender. Ele tinha um argumento, e o argumento era bom: o meu pai deixou escrito, o meu pai confiou, a minha mãe confiou, e onde é que os dois estão agora. Eu não tinha resposta para aquilo na terça e não ia ter em nenhum sábado.
O que eu tinha era o resto da conta. Se eu ia andar para dentro daquilo, eu precisava do treino dele para chegar inteiro, e ele não ia me dar o treino de bom grado depois de eu contar. Ele ia me dar de todo jeito, e mais duro, e reclamando.
Cheguei em casa com a camisa seca de novo e as mãos tremendo do guidão. Encostei a bicicleta no corredor, sentei na beira da cama sem acender a luz, e passei um tempo com o polegar no relevo da pulseira, no animal de focinho comprido que eu ainda achava que era um lobo.
Meses. Talvez um ano.
No dia seguinte eu cheguei no dojo às cinco menos dez, e o Santos não comentou o adiantamento.