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Ato 1 — Despertar · Capítulo 02 — Dojo Carmesim

Ato 1 — Despertar

Capítulo 02

Dojo Carmesim

Enterramos o meu pai no domingo. Na segunda eu não saí do quarto. Fiquei com o cartão do Lucas virado para baixo em cima da cômoda, levantei duas vezes de madrugada para conferir se continuava ali. Passei o dia com a mesma lista na cabeça, e a lista era de gente. Um homem que ensinou desenho para a minha mãe e que ninguém soube me dizer o nome. Um homem cuja linha, no meio de um salão em que trinta e uma pessoas recuaram de mim ao mesmo tempo, ficou exatamente onde estava — âmbar, acolhedora e morna, apontada para o meu peito, sem oscilar uma vez enquanto ele falava. E o meu pai, que contava as saídas de um restaurante enquanto lia o cardápio e morreu numa avenida em que sabia o tempo de cada semáforo.

Três homens. Do segundo eu tinha um cartão, e para chegar nele eu precisava passar pelo Santos.

Na terça de manhã eu já sabia que não ia esperar: decidi fazer o primeiro movimento.

Meu pai treinava às quintas, um antigo ritual entre ele e o Santos, depois das oito, quando a academia esvaziava. O normal era esperar a quinta, aparecer naquele horário que sempre foi dos dois e falar com o Santos depois do treino. Mas eu não queria treinar. Eu queria que ele concordasse com uma frase: me leva para conversar com o Lucas.

O lugar se chamava Dojo Santos, em letra branca na porta de vidro, piso escuro, paredes claras, equipamento alinhado com precisão. Era uma tela monocromática para todo mundo. Para mim era outra coisa e a diferença estava no tom avermelhado.

Artefato · A porta do Dojo Santos

Quando dois corpos entram em confronto as linhas que os ligam esquentam. Competição cria tensão, tensão cria temperatura, e a temperatura sobe pelo fio até virar um vermelho baixo que não é sangue nem raiva, é pura intensidade. Um tatame com quatro duplas trabalhando ao mesmo tempo é uma fogueira vista de perto — quatro focos de brasa dançando a meio metro do chão.

Terça à noite o salão era de um grupo seleto, sete ou oito adultos que o Santos acompanhava de perto. Eu tinha visto aquele grupo de longe a vida inteira e quase todos eram próximos do meu pai. Me cumprimentavam com um aceno de cabeça, e era só.

Dessa vez foi outra coisa. Quando atravessei a porta o inverno entrou comigo: o calor de trabalho que havia naqueles fios afundou de uma vez num azul fundo e pesado, sem brilho, e ficou ali. Dois ou três vieram, me deram um abraço e não falaram nada — o grupo nunca foi de conversar.

Foi a primeira vez que eu vi aquela cor sem ser eu que a tinha posto. No velório o azul tinha saído de dentro de mim e subido pelos fios dos outros, e eu tinha pagado catorze horas de sono por aquilo. Ali eu não fiz nada. Eu atravessei uma porta, e sete homens que enterraram um amigo no domingo pesaram todos ao mesmo tempo.

O Santos me viu da outra ponta e levantou o dedo indicador, o gesto de quem pede um minuto e vai levar vinte. Sentei no banco lateral.

O veterano veio antes dele.

Eu conhecia aquele homem sem nunca ter falado com ele. Ele também treinava às quintas — enorme, ombros que enchiam a porta, dois dedos tortos no pé direito e um andar lento que não combinava com o que ele fazia no tatame. Eu tinha visto ele e meu pai lutarem dezenas de vezes, do banco, com o dever de casa aberto no colo e nenhuma linha da lição feita.

E o meu pai ganhava quase sempre. Não por força, porque a força transbordava naquele homem. Por técnica.

Ele sentou no banco ao meu lado, com aquele cuidado que homens grandes têm com móveis, e ficou um tempo olhando o tatame em vez de mim.

— Eu perdi vinte anos para o seu pai — disse. — Nunca entendi como.

— Lembro de ver você ganhar dele algumas vezes.

— Você lembra das que ele não estava lá. — Ele riu pelo nariz. — Dava para ver quando a cabeça dele estava em outro lugar. Nessas eu ganhava e ia para casa achando que tinha melhorado.

O fio entre nós dois estava ali desde que ele sentou, fino e sem nada dentro, do tipo que existe só porque duas pessoas dividem um banco. Ficou morno devagar enquanto ele falava, sem engrossar.

— Eu não sabia se você vinha. — Ele apoiou os antebraços nos joelhos. — A gente ia mandar flores, mas somos oito homens grandes que não sabem escrever um cartão.

Eu olhei para o tatame.

— Ele te ensinou alguma coisa? — perguntou, sem virar o rosto.

— Ensinou.

— Vem trabalhar um pouco comigo, então. — E aí ele me olhou. — Se você quiser. Se não quiser, senta aí e espera o Santos.

Era convite, e eu conferi na linha antes de acreditar: continuava morna, continuava fina, sem aquele retesamento que aparece quando alguém está oferecendo uma coisa e querendo outra.

Eu estava de blusão e calça de moletom. Tinha ido para falar com o Santos e ir embora.

— Eu quero — falei, joguei o blusão no banco e comecei a me alongar.

Ele foi honesto desde o primeiro minuto, e honesto ali significava devagar.

Começou me dando o ritmo. Mão aberta, um ataque de cada vez, e entre um e outro uma pausa comprida o bastante para eu ter tempo de escolher errado e ver o erro. Quando eu recuei em linha reta ele parou o treino inteiro.

— Não anda para trás. — Ele bateu duas vezes no próprio quadril. — Anda para o lado. Para trás você chega no espelho e o espelho não te ajuda.

Fizemos aquilo umas dez vezes. Ele entrando, eu saindo pelo lado, ele corrigindo o ângulo do meu pé com a ponta do dele sem parar de falar. Depois trocou: começou a me deixar entrar. Abriu espaço, esperou, e quando eu fui ele absorveu o impulso girando o tronco e eu passei por dentro do lugar onde ele tinha estado.

O fio entre nós dois esquentou junto com o trabalho.

E naquela noite eu senti pela primeira vez uma coisa que eu levei anos para saber dizer. A linha de dois corpos trabalhando fica de um vermelho baixo, cor de tijolo cozido, e o que ela tem de próprio é a ausência de direção: as duas pontas puxam com a mesma força, ao mesmo tempo, e o fio fica tenso no meio, com peso igual nos dois lados. Quando alguém quer machucar alguém o desenho muda — um lado puxa, o outro só recebe, e o fio inteiro se inclina.

O nosso estava reto. Quente, grosso, parado no mesmo tom, e as outras três duplas do salão tinham o mesmo desenho: quatro focos de brasa a meio metro do chão, todos com peso nas duas pontas.

Aquilo me distraiu. Foi a primeira vez na vida que eu vi quatro fogos ao mesmo tempo e tentei olhar os quatro.

— Você está olhando para longe — ele disse, e me acertou de leve na testa com a mão aberta. — Olha para mim.

Voltei. Ele deu ritmo mais um pouco, e depois avisou, do jeito que se avisa:

— Agora eu vou trabalhar.

Levou um minuto e meio. Eu sei porque eu vi o relógio da parede quando caí, e tinha visto quando ele avisou.

Ele não fez nada de espetacular. Foi tirando as minhas saídas uma por uma, na ordem, como quem fecha as janelas de uma casa antes de viajar. Cada vez que eu achava um ângulo, ele já tinha estado ali e o ângulo tinha dono. E aí veio o passo de lado, o ombro entrando, e eu estava com a parede do espelho atrás — o lugar exato de onde ele tinha me mandado sair no primeiro minuto. Cinquenta quilos a mais do que eu. Eu conhecia aquele desenho de ver o meu pai sair dele, nunca de estar dentro dele.

Fui ao chão sem entender por qual das quatro coisas.

— Levanta — ele disse, e estendeu a mão. — Você fechou o olho no fim. Todo mundo fecha.

A segunda vez durou menos, e a culpa foi minha inteira.

Eu entrei com pressa. E a pressa apareceu no fio antes de aparecer no meu corpo: a minha metade da linha engrossou e esquentou sozinha, alguns segundos antes de eu fazer qualquer coisa, enquanto a metade dele continuava no mesmo tijolo morno de antes. Aquilo é a coisa mais desconfortável que existe — enxergar a própria intenção correndo na frente e não conseguir chamá-la de volta.

Tentei sair pelo lado que tinha me faltado e ele já estava naquele lado. Bati com o quadril primeiro e com o ombro depois, e ficou aquele zumbido baixo que fica quando o tatame cobra.

Ele me deu a mão outra vez.

— Olha. — Ele não estava nem respirando forte. — Você enterrou o seu pai domingo. Não tem nada aqui que precise ser hoje. Senta, toma água, vem quinta.

Eu fiquei de pé sem pegar a mão dele.

— Mais uma.

Ele olhou para mim por um tempo. Depois deu de ombros e voltou para a marca.

— Então presta atenção em uma coisa só. Não em três.

Foi na terceira que eu vi.

Não foi no corpo dele. Foi meio segundo antes do corpo dele, e foi no fio: uma hesitação curtíssima do lado dele, um retesamento que subia da metade dele para o meio da linha e chegava até mim, sempre no mesmo lugar, sempre no instante entre decidir e mover. E era sempre a mesma vibração, com a mesma cara, e depois dela vinha o pé direito.

Parei de tentar prever o movimento no corpo, decidi sentir pela linha.

E funcionou. Funcionou de um jeito que me deu vontade de rir no meio do treino: eu sabia para onde antes de haver para onde. A intenção saía dele, atravessava o fio, e só depois o ombro se comprometia com aquilo, atrasado, confirmando uma coisa que eu já tinha lido. Três vezes seguidas eu estava saindo antes de ele chegar. Ele levantou uma sobrancelha na segunda.

Não serviu para o bastante.

Porque saber por onde vem é uma coisa e sair do caminho é outra, e a segunda se faz com o corpo. Eu lia a intenção, mandava o ombro para o lado, e o ombro chegava tarde — dezesseis anos, cinquenta quilos a menos e três noites de quatro horas de sono. A informação chegava cedo e inútil, do jeito que chega um aviso de enchente para quem não tem para onde ir.

E tinha um custo que eu não esperava: ler o fio consome atenção, e a atenção é a mesma que o corpo precisa. Nos segundos em que eu estava no fio eu não estava nos pés dele.

O primeiro pegou de raspão. O segundo eu parei com a guarda, e a força atravessou a guarda e os meus antebraços bateram no meu próprio rosto. No terceiro eu já estava caindo antes de ele encostar.

Eu enxergava tudo. Não adiantava nada.

Fiquei de bruços no tatame com o gosto de moeda na boca, e é aí que a coisa acontece.

Não foi raiva. Preciso registrar isso com cuidado, porque seria mais simples se tivesse sido: eu estava deitado, calculando. Ele tinha entrado em mim três vezes e as três tinham o mesmo desenho — passo de lado com o pé direito, o ombro fechando o ângulo, o peso adiantando meio palmo antes do resto do corpo. Um homem grande que ganhou vinte anos de brigas fazendo aquilo não tem motivo para trocar.

E havia um ponto abaixo das costelas que o meu pai me fazia repetir no quintal, devagar, com a mão aberta, contando em voz alta. Ele nunca chamou aquilo de nada. Só disse, todas as vezes, que era para ficar em casa.

Levantei.

Na quarta eu não esperei o convite. Recuei meio passo para dar a ele o ângulo que ele gostava, e ele pegou — o pé direito saiu, o ombro veio fechar, e o peso adiantou meio palmo antes do resto, do jeito que tinha adiantado nas outras três. O corpo dele estava exatamente onde eu tinha posto. A costela ficou aberta, e a minha mão já estava no caminho, fechada, com o quadril inteiro atrás dela.

E o fio entre nós inclinou.

O tijolo morno que tinha ficado nele a noite inteira sumiu, e no lugar veio o carmesim — fundo, saturado, sem nada de brasa, com uma nitidez que doía de olhar. Eu nunca tinha visto aquela cor num fio, nem saindo de mim nem de ninguém. Estava numa ponta só, e a ponta era a minha, e o fio ia numa direção só.

Foi a primeira vez, e é a cor que eu carrego daquele lugar.

Foi quando o apito cortou o salão.

Um toque só, curto, do outro lado da sala. Aquele apito abriu todas as aulas que eu fiz naquele lugar, três anos delas, e o meu corpo conhecia o som antes de a cabeça conhecer.

Eu não decidi parar. A mão parou. Encostou na costela dele com o peso de quem cumprimenta, e o quadril ficou para trás, e o movimento morreu no meio sem nunca ter existido inteiro.

Nós dois ficamos ali por um segundo, muito perto.

O veterano deu um passo atrás e olhou para o próprio flanco, e depois para a minha mão, e depois para o meu rosto. A linha entre nós perdeu a temperatura de treino e ficou com uma coisa fina e desorganizada dentro, do tipo que aparece quando alguém procura uma informação e não encontra.

— Você tá bem? — perguntou.

Era para mim. Ele estava perguntando de mim.

— Estou bem.

— Você travou. — Ele coçou a nuca. — Eu estava indo, você estava vindo, e do nada não tinha ninguém no lugar onde eu ia. — Ele olhou o flanco outra vez. — Foi você ou fui eu?

— Fui eu.

— Foi você. — Ele soltou o ar pelo nariz, e a coisa fina no fio foi ficando morna outra vez. — Que movimento é esse?

— Eu não sei o nome.

— Pois você vem quinta e a gente descobre. — E aí ele me deu um tapa de mão aberta no ombro, do tipo que desloca. — Sério. Vem quinta. Você levantou três vezes e é mais do que a maioria faz aqui.

Ele foi para o bebedouro sem esperar resposta, e o fio entre nós ficou naquele morno de gente que dividiu uma sala e vai dividir outra vez.

Eu fiquei sentado no tatame mais tempo do que precisava.

Se o meu pai estivesse ali, ele teria me tirado daquele treino pelo colarinho no instante em que a minha mão entrou naquele caminho. Teria esperado a rua para falar, porque ele não corrigia na frente de ninguém, e teria falado baixo, do jeito que ele falava quando era grave, e teria dito que aquilo não se faz com quem confiou o corpo a você. Eu conheço a bronca inteira. Sei a temperatura dela.

Só que ele não teria precisado.

É isso que eu levei a noite inteira para conseguir olhar de frente. Com o meu pai encostado no batente da porta do quintal, o movimento não chegava na minha cabeça. Não era obediência: dez anos de repetição tinham construído em mim uma parede antes da vontade, e a parede era o corpo dele ali, olhando.

Ele não estava mais no batente. E entre a vontade e a costela daquele homem não sobrou parede nenhuma — sobrou um apito, de um outro homem, do outro lado do salão.

O resto eu aprendi com o rosto no tatame, e foi o que prestou. Enxergar a intenção de um homem não me dava o corpo para responder a ela. Entre ver e conseguir havia uma distância, e a distância tinha o tamanho de anos.

O Santos estava com o apito ainda na mão quando eu olhei para ele.

— Vem comigo.

A sala dos fundos era menor. Sem janelas, sem espelhos, piso mais rígido. Eu já tinha passado por aquela porta e nunca entrado.

O Santos fechou atrás de nós e o barulho da academia sumiu de uma vez. Ficou o zumbido do ar-condicionado e dois corpos respirando em ritmos diferentes.

Antes de falar, ele olhou para quatro pontos no teto e depois para um canto da parede. Só então respirou.

— Seu pai treinava aqui.

Eu não respondi.

Ele pôs o apito no bolso e ficou girando o cordão no dedo.

— Eu apitei atrasado — disse. — Eu vi você recuar meio passo e eu não entendi. Eu achei que você estava cansado. — O cordão parou. — Só entendi quando o Zé mordeu o ângulo.

O nome do homem era Zé. Eu tinha passado a vida inteira vendo ele lutar com o meu pai e nunca soube o nome dele.

— Eu ia acertar — falei.

— Você ia partir a costela dele. — Ele disse isso sem levantar a voz e sem tirar os olhos de mim. — Com um homem de cinquenta anos que te chamou para treinar e te deu a mão duas vezes.

Eu não tinha nada para responder, então não respondi. E ele esperou, o que foi pior.

— Eu não me arrependo — falei, por fim, e era verdade, e me deu vergonha ser verdade. — Eu queria saber se dava.

— Dava.

Ele foi até a parede e apoiou as costas nela.

— Aquele ponto. Ele te ensinou?

— Ele me fazia repetir. Muito.

— Quantas vezes?

— Não sei. Muitas.

— Ele dizia alguma coisa enquanto você treinava?

Eu quase ri.

— Protocolo de repetição. "O corpo aprende depois da décima milésima vez."

O Santos soltou uma risada curta, sem alegria nenhuma.

— Ele falava isso comigo também. — Caminhou até o centro da sala e ficou de costas. — Você sabe o nome daquilo que você fez?

— Não tem nome. É o que a gente fazia no quintal.

— Tem nome. — Ele se virou. — Schattenlinie.

Eu nunca tinha ouvido aquela palavra na vida. Tinha passado dez anos executando a coisa e ela não tinha nome nenhum — era só o que se fazia na minha casa, do jeito que uma criança acha que a casa dela é a medida do mundo.

— Linha das Sombras — ele traduziu. — Eu nunca venci o seu pai quando ele usava aquilo. Nem sendo mais forte, e eu já fui mais forte que ele. O Zé nunca venceu, e o Zé é mais forte que nós dois juntos.

— Por quê?

— Porque força não vence leitura de intenção.

Eu fiquei com aquilo, e não foi orgulho o que me subiu. Foi o homem que eu vi tomar café de pijama todas as manhãs da minha vida, de repente, sendo uma pessoa que adultos treinados não conseguiam vencer.

— Então me ensina.

— Calma.

— Você falou que ele usava. Usava onde?

O Santos parou o cordão do apito no dedo.

— Trabalhando.

— Trabalhando de quê?

— Hoje não, garoto.

Não foi esquiva. Ele disse aquilo do jeito que se fecha uma porta que a gente vai abrir depois, e eu conheço a diferença porque passei a vida com um homem que fechava as duas.

— Você vai me contar?

— Eu vou pensar no que eu conto e na ordem. — Ele coçou a barba do queixo. — E eu vou errar, provavelmente. Mas não vou errar hoje, com você desse jeito e eu desse jeito.

Eu olhei para o chão.

Ele respirou fundo e então, com a voz mais grave, imitou o meu pai:

— Protocolo de segurança, item três: excesso de informação é o jeito mais rápido de colocar em perigo pessoas importantes para você.

Eu não consegui evitar o sorriso.

Meu pai tinha dezenas de protocolos. Alguns sérios, outros quase brincadeira. Protocolo acordar incluía escovar os dentes antes de qualquer conversa estratégica, arrumar a cama com alinhamento perfeito, revisar três ações do dia e comer um omelete de dois ovos — sempre dois — montado diferente a cada manhã. Era disciplina misturada com cuidado, e demorei a conseguir dizer isso em voz alta sem sentir que estava sendo generoso com um homem que me criou dentro de um sistema. Não estava. As duas coisas eram verdade ao mesmo tempo, e o instrumento era o mesmo.

— Ele era metódico demais — disse o Santos.

— Ele era.

Ficamos alguns segundos ali sem dizer nada, os dois lembrando do mesmo homem em versões diferentes: ele com vinte anos de coisas que eu nunca ia saber, eu com dezesseis de coisas que ele nunca ia ver.

— Levanta. Devagar. Não vou te bater.

Ele foi devagar mesmo, e foi por isso que serviu. Mão aberta, meia velocidade, um ataque de cada vez, esperando eu chegar. O que ele queria ver não era o que eu aguentava — era o que eu enxergava, e para isso não precisava de força nenhuma. Eu usei o que ainda tinha: mudança de centro, respiração controlada, microajuste de peso. O Santos reagia com uma precisão que eu não tinha visto nele em três anos de aula, porque nunca tinha havido motivo.

E em algum momento daquela sequência ficou claro para nós dois ao mesmo tempo.

Eu não estava antecipando movimento. Movimento qualquer lutador com horas de tatame antecipa, porque movimento tem começo e o começo aparece no corpo. Eu estava chegando antes do corpo.

Ele recuou, respirando forte, e ficou me olhando mais tempo do que era confortável.

— A leitura você tem — disse. — O corpo não. E corpo é repetição, e repetição é hora marcada. Seu pai não acreditava em talento. Ele achava talento uma desculpa de gente que não quer acordar cedo.

— Ele falava isso em casa.

O Santos ficou em silêncio por um tempo longo demais para ser pausa, e a linha dele fez uma coisa que eu não sabia ler naquela época: engrossou e esfriou ao mesmo tempo.

— Tem uma coisa que não fecha — disse por fim.

— O quê?

— Eu já lutei com o seu pai umas trezentas vezes. Ele lia o corpo: quadril, ombro, apoio, para onde o peso ia. Leva anos para ficar bom nisso, e ele ficou. — Apontou o dedo para o meu peito, sem encostar. — Você não está lendo corpo. Você está sabendo antes.

Eu não disse nada.

— Isso não é a técnica dele, garoto. É outra coisa. — A voz baixou. — Pressentimento.

Ele não explicou mais, e eu não perguntei, porque a essa altura eu já tinha entendido que a resposta era eu.

Quando terminou eu estava no chão outra vez, respirando pesado, com as costelas cobrando cada respiração. O Santos me entregou uma toalha e uma garrafa de água, e sentou no banco lateral, que era baixo demais para o tamanho dele. Ficou com os cotovelos nos joelhos e as mãos soltas entre as pernas.

— Seu pai salvou minha vida mais de uma vez — disse, olhando para o chão. — Não só em luta.

Eu não disse nada, porque eu queria a frase inteira e ele ia terminar sozinho se eu ficasse quieto.

— Ele te contou que eu sou seu responsável legal?

Eu levantei a cabeça.

— Não.

— Pois é. Nem eu esperava. — Ele passou a mão no rosto. — Ele apareceu aqui num sábado de fevereiro, de manhã, com uma pasta e um envelope, e me pediu para assinar. Eu perguntei se ele estava doente. Disse que não. Perguntei se estava enrolado em alguma coisa. Disse que não. Eu assinei porque era ele pedindo, e porque não passou pela minha cabeça que aquilo fosse servir.

Fevereiro.

No dia dez de fevereiro eu tinha feito dezesseis anos. Ele me levou para comer pastel na feira e comprou dois de carne e um de queijo para dividir, do jeito que ele fazia desde que eu era pequeno. Naquela manhã, num sábado qualquer daquele mesmo mês, ele tinha entrado ali com uma pasta.

— Quatro meses — eu disse.

— Quatro meses.

Ficou um silêncio que não era pausa. Nós dois estávamos fazendo a mesma conta, e nenhum dos dois queria ser o primeiro a dizer o resultado em voz alta.

— Eu não acredito que foi acidente — disse ele.

A voz mudou de textura na última palavra, e a linha entre nós encurtou dois palmos sem que nenhum dos dois se mexesse.

— Protocolo de saída. Seu pai não entrava num lugar sem saber por qual porta ia voltar. Não pegava a mesma rua duas vezes na semana. Contava as saídas de um restaurante enquanto lia o cardápio, e eu vi ele fazer isso centenas de vezes sem parar de conversar.

— Eu sei. Ele me obrigava a repetir na calçada.

— Então você entende o tamanho do que eu estou dizendo. — Ele olhou para mim pela primeira vez desde que sentou. — Aquele homem vivia três passos à frente, todos os dias, por vinte anos. E morreu num acidente de trânsito às onze da noite numa avenida que ele conhecia.

Ele disse aquilo e ficou olhando para a porta fechada, e eu percebi que vinha pensando a mesma coisa havia três dias sem me dar licença de pensar.

— Gente assim não morre desse jeito — disse o Santos. — Ou morre, e aí eu sou um idiota que não sabe aceitar. Já considerei bastante essa possibilidade.

Eu tinha uma coisa na garganta havia três dias, e ela subiu ali, do jeito errado, sem eu escolher.

— Eu acho que ele se matou.

O Santos levantou a cabeça devagar.

— Ele foi assinar uma pasta em fevereiro, Santos. — A minha voz saiu firme, e a firmeza era do meu pai, não minha. — Quem faz isso está arrumando a casa.

— Ou está com medo de alguma coisa.

— Ou está se despedindo com quatro meses de antecedência. — Engoli. — Ele saiu de casa naquela noite e disse que ia resolver uma coisa importante. Eu pedi para ele prometer que voltava inteiro. Ele prometeu.

Ele não me interrompeu.

— E eu passei estes três dias achando que aquela promessa era despedida.

O Santos ficou muito quieto. Depois disse a coisa mais generosa que alguém me disse naquele ano, e disse com a voz absolutamente comum:

— Se ele se matou, você tem razão de estar assim. E se ele foi morto, você está de luto por uma coisa que não aconteceu.

Deixou aquilo no ar por um segundo.

— Só tem um jeito de saber.

Eu tinha dezesseis anos e acabava de descobrir a única coisa que ia me mover por três meses: eu preferia que meu pai tivesse sido assassinado. Não me orgulho e não peço desculpa. Assassinato significa que ele estava voltando, que a promessa era verdadeira, e que alguém a quebrou por ele. Um garoto enterrando o pai troca qualquer coisa por isso, e eu troquei.

Então eu disse a frase que tinha ensaiado a manhã inteira.

— O Lucas me deu isso no velório. — Tirei o cartão do bolso e mostrei. — Disse que ensinou desenho para a minha mãe, e foi só o que ele disse. Eu quero conversar com ele.

O Santos olhou o papel e não pegou. Ficou olhando um tempo maior do que um cartão precisa.

— Onde ele trabalha.

— Você conhece?

— Conheço ele. — Levantou, foi até a pia do canto e ficou de costas, enchendo uma garrafa que já estava cheia. — Do lugar eu não vou falar hoje.

— Por que não?

— Porque eu vou ter que começar do começo e vai levar horas, e porque metade do que eu sei é o que eu achei sozinho olhando de fora. — Fechou a torneira e continuou de costas. — Você já teve uma semana. Eu não vou te dar isso hoje.

— Mas você vai me dar.

— Vou. — Ele voltou e sentou mais devagar do que tinha levantado. — Quando você me perguntar querendo saber, e não querendo se mexer.

Eu não entendi aquilo naquela noite. Guardei do jeito que se guarda uma frase que não abre.

— E o Lucas?

— O Lucas é o homem mais inteligente que eu conheço. — Ele apoiou os antebraços nos joelhos. — Ele trabalhou anos com a sua mãe, e ele gostava dela de um jeito que eu nunca vi ninguém gostar de colega de trabalho. Isso é verdade e eu não vou fingir que não é.

— Mas você não confia.

— Não.

— Por quê?

O Santos ficou girando o cordão do apito no dedo, e o fio entre nós ficou vermelho por menos de um segundo, uma faísca que apareceu e o resto absorveu na hora. Foi a primeira vez que eu vi aquela cor sair dele na minha direção, e ela não era para mim.

— Porque o seu pai e a sua mãe confiaram em quem não devia — disse. — Os dois. E eu passei domingo num cemitério.

Eu esperei o vermelho ir embora antes de responder. Meu pai tinha me ensinado que quem responde dentro do golpe responde errado.

— Você acabou de dizer que só tem um jeito de saber.

— Eu sei o que eu disse.

— Então eu não estou pedindo para entrar em nada. Estou pedindo uma conversa. — Guardei o cartão. — Ele conheceu a minha mãe, Santos. Ninguém nunca me falou dela. Nem você.

Aquilo pousou. O fio parou de vibrar e ficou só denso, sustentando peso, e ele olhou para o tatame vazio pela porta em vez de olhar para mim.

E eu preciso ser justo aqui, porque a frase que eu usei era verdadeira e era desonesta ao mesmo tempo.

Ninguém nunca me falou da minha mãe. Também é verdade que eu nunca perguntei.

Eu tinha uns seis anos quando aprendi o que a pergunta fazia. Eu perguntei alguma coisa boba, se ela era alta, e o meu pai estava lavando louça, e ele não parou de lavar. Respondeu que era, mais ou menos da minha altura de hoje, e continuou. Não mudou de assunto, não me mandou calar a boca, não ficou triste na frente de mim — ele era boa demais nisso para ficar triste na frente de mim. O que aconteceu foi que ele lavou aquela mesma panela até a água esfriar, e depois ficou o resto da noite sem falar, e no dia seguinte acordou às cinco em vez das seis.

Uma criança não sabe nomear isso. Uma criança só aprende a conta: uma pergunta minha custava dois dias dele.

Então eu parei. Não de uma vez, e não por bondade — eu era um garoto, eu queria saber, e continuei querendo saber por dezesseis anos. Eu só fui aprendendo a trocar a pergunta por outra coisa. Perguntar dos lírios em vez de perguntar dela. Perguntar se ela gostava de café, que era barato, em vez de perguntar como ela morreu, que era caro. Cheguei a montar uma fila de perguntas na cabeça, ordenadas, e ia gastando uma por ano, nos aniversários dela, quando ele já estava mais mole.

Ficou muita coisa naquela fila.

E eu estava ali, numa sala sem janelas, com dezesseis anos, cobrando de um homem que a mãe dele também estava morta a informação que eu tinha passado a vida inteira não pedindo à única pessoa que tinha. Eu tinha protegido o meu pai de uma pergunta por dezesseis anos, e o resultado do meu cuidado é que agora não havia mais ninguém para perguntar.

O Santos passou a mão na nuca.

— Eu vou marcar — disse. — Não porque eu concordo. Porque se eu não marcar você vai atrás sozinho, e sozinho é pior.

— Eu ia atrás sozinho.

— Eu sei. — Um meio sorriso curtíssimo, o primeiro da noite. — Ele dizia que você ia dar trabalho.

— Ele dizia isso?

— Todo mês.

O Santos foi até a mochila e voltou com duas coisas na mão.

A primeira era uma pulseira de couro escuro, curtida de uso, com um pequeno medalhão metálico fosco no centro e a marca de onde o fecho tinha sido apertado no mesmo furo por anos.

— Ele carregava isso sempre — disse. — Depois que sua mãe morreu, me deu. Falou que poderia ser útil um dia, mas que esperava que não fosse necessário.

Artefato · A pulseira de couro

Eu passei o dedo pelo relevo. Um animal de focinho alongado, orelhas retas, corpo em perfil, patas em movimento, gasto no meio onde o polegar de alguém tinha passado por anos.

— É um lobo?

— Não faço ideia. Ele nunca explicou e eu nunca perguntei.

Fechei no furo que já estava marcado, e o couro assentou onde tinha assentado por anos. Pesava pouco para o que era.

A segunda coisa era um par de luvas velhas, e ele jogou no meu colo sem cerimônia. Estavam gastas na palma de um jeito que ninguém consegue fingir.

Artefato · As luvas do pai

— Também eram dele. E você vem aqui todo dia, cinco da manhã, a partir de amanhã.

— Cinco?

— Você caiu três vezes hoje e levantou três. — Ele pegou a pilha de coletes da bancada. — Levantar eu não preciso te ensinar. O que eu preciso é estar na sala na próxima vez que a sua mão for para uma costela, porque hoje foi um apito e apito não dá para carregar no bolso a vida inteira. Cinco da manhã.

Foi o que ele fez pelos anos seguintes. Todos eles. Eu levei muito tempo para entender que aquele homem, que não concordou com uma única escolha minha, nunca faltou a uma delas.

Na rua o frio tinha descido. Fui andando com a palavra nova no ritmo dos passos — Schattenlinie —, uma palavra de outra língua para a coisa que o meu pai fazia comigo no quintal sem chamar de nada. Na esquina, percebi que estava atravessando pelo lado de fora do poste, de costas protegidas, do jeito que ele atravessava.

O Santos ligou na manhã seguinte, antes das seis, e falou como quem já tinha desistido de discutir.

— Quinta, quatro da tarde. Ele mandou o endereço. — Uma pausa curta. — É uma casa amarela, Nicolas.

Fim de capítulo 02

A porta do Dojo Santos As luvas do pai A pulseira de couro